O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
domingo, 6 de janeiro de 2008
Feiticeira - Francisco Viana
De que noite demorada
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada
De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado
De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido
De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.
Ou de que breve manhã
Vieste tu, feiticeira
De nuvens deslumbrada
De que sonho feito mar
Ou de que mar não sonhado
Vieste tu, feiticeira
Aninhar-te ao meu lado
De que fogo renascido
Ou de que lume apagado
Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido
De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida.
Autopsicografia - Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
domingo, 30 de dezembro de 2007
Avó
O mundo perdeu mais um sorriso avó, mas o céu ganhou mais uma estrela.
Sinto o tempo mais frio, os dias mais escuros e as lagrimas prontas a escorrer pelo meu rosto.
Preciso do teu beijo avó, do teu olhar doce, da tua voz serena que me contava historias à tarde depois de dormires a sesta.
Preciso de ti aqui avó, preciso de ir até ao quintal de plantar de novo o milho que cresceu a ouvir todas as nossas conversas e brincadeiras.
Quero arranjar a comida para as gaivotas, avó, quero que com toda a tua paciência me ajudes a prepara-la, quero ir lá a cima avó, sentar me ao teu lado e ouvir o que fazias quando eras pequena, a historia do lobo, da tua irmã que nunca conheci, das ovelhas, das casas de xisto e tetos de colmo, do pão escuro e do cheiro a fumo, quero que me contes com orgulho a historia dos pasteis de bacalhau que fizeste, que eram tantos para tanta gente e que sumiram.
Quero que me olhes com ar serio e digas “olha que o teu avô ainda nasceu no tempo dos reis!”
Avó, não podias partir assim, não antes de te levar a Covas do Rio, avó, não podias deixar-me antes de eu casar, antes de conheceres o meu namorado, não avó, não podias ir avó.
Mas eu sei que querias, eu sei, e Ele vai tomar conta de ti.
Dá um beijo ao avô diz lhe que tenho saudades dele mesmo de quando ele gritava comigo.
Adoro-te avó.
Tenho saudades tuas.
Sinto o tempo mais frio, os dias mais escuros e as lagrimas prontas a escorrer pelo meu rosto.
Preciso do teu beijo avó, do teu olhar doce, da tua voz serena que me contava historias à tarde depois de dormires a sesta.
Preciso de ti aqui avó, preciso de ir até ao quintal de plantar de novo o milho que cresceu a ouvir todas as nossas conversas e brincadeiras.
Quero arranjar a comida para as gaivotas, avó, quero que com toda a tua paciência me ajudes a prepara-la, quero ir lá a cima avó, sentar me ao teu lado e ouvir o que fazias quando eras pequena, a historia do lobo, da tua irmã que nunca conheci, das ovelhas, das casas de xisto e tetos de colmo, do pão escuro e do cheiro a fumo, quero que me contes com orgulho a historia dos pasteis de bacalhau que fizeste, que eram tantos para tanta gente e que sumiram.
Quero que me olhes com ar serio e digas “olha que o teu avô ainda nasceu no tempo dos reis!”
Avó, não podias partir assim, não antes de te levar a Covas do Rio, avó, não podias deixar-me antes de eu casar, antes de conheceres o meu namorado, não avó, não podias ir avó.
Mas eu sei que querias, eu sei, e Ele vai tomar conta de ti.
Dá um beijo ao avô diz lhe que tenho saudades dele mesmo de quando ele gritava comigo.
Adoro-te avó.
Tenho saudades tuas.
CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ
Tens noventa anos.És velha, dolorida.Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler.Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.Viste nascer o Sol todos os dias.De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal!Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los.Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte.Trave da tua casa, lume da tua lareira sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.Não sabes nada do Mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião.Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar.Com isto viveste e vais vivendo.És sensível às catástrofes e também aos casos da rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma.Vives.Para ti, a palavra Vietnam é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio.Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses.E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre.O teu riso é como um foguete de cores.Como tu, não vi rir ninguém.Estou diante de ti e não entendo.Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo.Vieste a este Mundo e não curaste de saber o que é o Mundo.Chegas ao fim da vida, e o Mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida.Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos- e continuo a não entender.Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente.Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesses compreender.Já não vale a pena.O mundo continuará sem ti- e sem mim.Não teremos dito um ao outro o que mais importava.Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido.Fico com esta culpa de que me não acusas- e isso ainda é pior.Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"É isto que eu não entendo- mas a culpa não é tua.
José Saramago
José Saramago
Chega
Chega.
Por hoje sinto que chega.
Tudo o que me tucou, aqui ficou por entre as linhas do meu blog.
Talvez amanha quem sabe, uma coisa ou outra não me venha à memória?
Mas antes há algo que por mais que tente não deixo de recordar e aqui ficam duas cartas
uma minha
outra de um grande escritor.
Por hoje sinto que chega.
Tudo o que me tucou, aqui ficou por entre as linhas do meu blog.
Talvez amanha quem sabe, uma coisa ou outra não me venha à memória?
Mas antes há algo que por mais que tente não deixo de recordar e aqui ficam duas cartas
uma minha
outra de um grande escritor.
Mar Portugues - Fernando Pessoa
Ó MAR SALGADO, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
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